Q7

De próprio punho A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes […]

Texto para as questões de 06 a 10.

De próprio punho

A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro

Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e mais cheia de arestas.

É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus e o mundo.

A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.

No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais ainda as adultas) precisa conviver.

As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.

RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).

O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a

A
defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo.
B
exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais.
C
abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva.
true
D
utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor.
E
apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo.

Resolução e Gabarito

C

Resolução comentada: A crônica geralmente é caracterizada por ser uma narrativa breve, escrita em linguagem coloquial, que aborda temas e situações do cotidiano e apresenta poucos personagens. Na crônica “De próprio punho”, a autora reflete sobre a atividade de escrita e sobre o modo como ela faz parte de sua rotina, articulando recursos tecnológicos e registros feitos à mão. Em trechos como: “minha letra está em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes”, “post its rosa-choque, colados precariamente”, “lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas”, a autora aborda fatos do contexto pessoal para refletir sobre as circunstâncias em que a escrita está presente no cotidiano.

Prova

ENEM

Ano

2025

Area

Linguagens, códigos e suas tecnologias

Tema

Leitura e interpretação de textos

Tópico

Campo artístico-literário

Habilidade

Disciplina

Língua Portuguesa

Caderno

Caderno branco 6

Caderno Azul 7

Caderno Amarelo 8

Caderno Verde 8

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